8. ARTES E ESPETCULOS 23.1.13

1. CINEMA  PARA A POSTERIDADE
2. TELEVISO  O VOO DA FRANGUINHA
3. LIVROS  O XTASE DA NATUREZA
4. LIVROS  COROA PESADA DEMAIS
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  GUIDO E GISELE

1. CINEMA  PARA A POSTERIDADE
Lincoln, escrito pelo dramaturgo Tony Kushner e dirigido com sobriedade incomum por Steven Spielberg,  um filme fascinante sobre o poder da
palavra de transformar ideias em fatos
ISABELA BOSCOV

     Lincoln (Estados Unidos, 2012), o novo trabalho de Steven Spielberg que estreia nesta sexta-feira no pas liderando a parada de indicaes ao Oscar,  o que uma parte do pblico descreveria como um filme chato: fala-se muito, e o assunto  quase sempre poltica (tanto a do p maisculo, a dos ideais e princpios, quanto aquela mida, a dos arranjos mesquinhos de bastidores); os personagens com falas somam mais de uma centena (trinta ou quarenta  o habitual nos filmes em que h muita gente), e eles so quase todos homens barbudos, com ou sem cartola; no h cenas em que a emoo sobe para arrebatar o espectador, como  regra nos filmes do diretor  muito menos ao, no sentido convencional do termo. Uma outra parte do pblico, porm, estaria absolutamente certa em dizer que este  o melhor trabalho de Spielberg em muito, mas muito, tempo.
     A rigor, este  menos um filme de Spielberg que de Tony Kushner, o brilhante dramaturgo de Angels in America e autor do roteiro tambm de Munique. Concentrando-se nos cerca de dois meses do fim de 1864 e incio de 1865 em que Abraham Lincoln, o 16 presidente americano e o de mais espantosa envergadura entre todos os 44 at aqui, negociou com a teimosia de uma mula, a habilidade de uma raposa e a fria de um leo para passar no Congresso a 13 Emenda  a que abole toda forma de escravido , o roteiro de Kushner encapsula com preciso notvel, e com sentimento passional, um daqueles momentos que reconstroem uma nao, para que ela seja legada s geraes futuras muito maior do que jamais poderia ser caso tivesse mantido seu curso.  tambm um retrato astuto de um homem que a venerao da histria e o assassinato trgico em 14 de abril de 1865, cinco dias aps o fim da guerra civil, santificaram. Mas que na biografia em que parcialmente se baseia (Team of Rivals, de Doris Kearns Goodwin, que esta sendo lanada aqui pela Record com o ttulo de Lincoln), nas pginas de Kushner e na interpretao rica, vvida e entregue de Daniel Day-Lewis ressurge inteiramente humano, do idealismo intransigente at o gosto pelo toma l d c comezinho da poltica e a relutncia como pai e marido. , ainda, em alguns relances, uma dolorosa pea familiar na tradio sulista de Tennessee Williams ou William Faulkner: quando Lincoln e sua mulher, Mary Todd Lincoln (Sally Field), brigam at quase o confronto fsico sobre a deciso de seu filho mais velho, Robert (Joseph Gordon-Levitt), de se alistar, tem-se um lembrete eloquente tanto do preo que a ambio de um marido pode cobrar de sua mulher quanto da quantidade tremenda de perda e morte que essa gerao foi obrigada a enfrentar (os Lincoln haviam perdido dois de seus quatro filhos a essa altura, e Mary, que j nascera difcil, era ento um emaranhado de nervosismo, carncia e depresso  como observou o crtico da The New Yorker David Denby, um perfil que cabe com perfeio nos traos s vezes irritantes de Sally Field como atriz, e dos quais Spielberg tira bom proveito).
     Mas o que se tem aqui, sobretudo,  um filme sobre o poder da palavra, em todas as suas formas. Abraham Lincoln nasceu pauprrimo e mal foi  escola, porm conseguiu se formar advogado. Por natureza, era um talentoso contador de causos (alguns dos quais proporcionam grande diverso no decorrer do filme); por treino, sabia falar a gente de todo tipo de extrao, da mais humilde  mais elitista, e  um prazer ouvir o filme de Spielberg passeando por tantos linguajares e formas de expresso diferentes. No seu sentido maior, porm, Lincoln trata de como a palavra, em geral e neste caso em particular,  a ferramenta que transforma a ideia em realidade. A maior, portanto, de todas as ferramentas que o ser humano tem a seu dispor, e a que em efeito o faz humano.
     Em 1863, no terceiro ano da guerra civil que ops a Unio, o norte, contra os rebeldes confederados, o sul, em torno da questo da escravatura, Lincoln aproveitou o cacife angariado com sua vitria acachapante na Batalha de Antietam e baixou a Proclamao de Emancipao: anulou o status dos negros como propriedade, e tirou assim ao sul sua fora de trabalho e, por consequncia, a fonte de sua riqueza. (Muitos desses negros se alistariam como soldados e lutariam pela Unio.) Entre esse evento e a vitria final da Unio, em abril de 1865, a guerra ainda viraria para l e para c, favorecendo ora o norte, ora o sul, e Lincoln se reelegeria para um segundo mandato, escorado em outra vitria do norte, esta em Atlanta (a qual celebremente  retratada em ...E o Vento Levou). Com a guerra se aproximando do fim, no incio de 1865, o presidente rezava ao mesmo tempo para que a paz viesse e para que ela no chegasse cedo demais: o castigo que o norte vinha impondo aos sulistas nos campos de batalha era a moeda forte que ele tinha para forar a aprovao da 13 Emenda  Constituio e evitar, assim, que a Proclamao de Emancipao, um instrumento legal muito frgil, fosse sumariamente revogada no momento em que os estados confederados se reintegrassem  Unio (ele explica os meandros jurdicos do problema em um dos mais densos raciocnios j expostos em um filme).
     Trocando em midos: uma guerra desesperada, com centenas de milhares de baixas, teria sido travada por nada, j que os escravos libertos voltariam  servitude. Inaceitvel, pensava Lincoln. Que ento partiu para o abrao, em sua verso poltica mais literal: contratando agentes especializados na persuaso eticamente duvidosa de indivduos moralmente flexveis, mirou primeiro nos deputados em fim de mandato, que logo ficariam sem emprego. (James Spader, um ator que como se pode ver aqui no tem sido aproveitado  altura de seu potencial, deita e rola no papel de um desses agentes, o muito ardiloso mas tambm muito franco W.N. Bilbo  nenhum parentesco com o protagonista de O Hobbit.) Com canetadas, Lincoln foi investindo um fiscal de impostos aqui, um gerente de correios ali e um cnsul acol, aproximando-se da maioria de dois teros do Congresso necessria  aprovao da emenda. Alguns dos em cima do muro congressistas a favor da abolio, mas contrrios  equiparao dos negros como cidados  foram convencidos na base do debate puro e simples. Outras figuras menores receberam favores, para que ficassem obrigadas a cobrar de outros representantes da Casa favores que, por sua vez, lhes eram devidos. E assim, ora usando argumentos morais, ora torcendo braos ou fazendo afagos, em 31 de janeiro de 1865 Lincoln, contra todas as apostas e expectativas, conseguiu o que queria: a aprovao, com dois votos alm do necessrio, da 13 Emenda  Constituio, a qual decreta que nem a escravido nem a servitude involuntria devero existir dentro dos Estados Unidos. Esse  o processo fascinante que Lincoln recria. A mais grandiosa medida do sculo XIX passou por meio da corrupo endossada e promovida pelo homem mais puro da Amrica, definiria o abolicionista radical Thaddeus Stevens  Tommy Lee Jones, em um desempenho gloriosamente cido. (Vale mencionar que no s quase todos os numerosos atores lembram muito, fisicamente, as figuras reais que interpretam, como so invariavelmente excelentes.)
     Poucos anos antes, em 1857, a Suprema Corte americana julgara que os negros so to inferiores que no tm direitos que o homem branco esteja obrigado a respeitar. Entre maio e junho de 1864, as foras do norte haviam sofrido 65.000 baixas  o que hoje, proporcionalmente, equivaleria a quase 1 milho de mortos e feridos. Os pacifistas do Partido Democrata rotulavam Lincoln como um dspota militar e exigiam que ele pusesse fim  guerra e reconhecesse a Confederao como uma nao (como se costuma dizer, a poltica junta na mesma cama os mais estranhos parceiros: os democratas, nesse perodo, eram antiabolicionistas ferrenhos, instilando o pnico popular com o raciocnio de que da abolio ao direito de voto dos negros  e das mulheres!  seria s um passinho). Seu prprio partido, o Republicano, achava que, como poltico, Lincoln estava condenado. Havia montanhas  no, cordilheiras  na frente de Lincoln. E, no entanto, elas no lhe obstruram a viso. E como ela alcanava longe: se h uma maneira de explicar quanto a 13 Emenda foi revolucionria,  lembrando que s um sculo depois, na dcada de 1960, com o movimento pelos direitos civis e pelo fim da segregao racial, o processo que ela iniciou comearia a se completar  mais uma vez, com imenso sacrifcio e violncia. O que o Lincoln de Steven Spielberg e Tony Kushner defende, com riqueza de argumentos,  que foi necessrio a Abraham Lincoln mover essas montanhas (falando, falando e falando) para compor uma frase crucial e ajunt-la irrevogavelmente  Constituio. E que a palavra certa, levada  melhor tribuna, no  um som   um fato e um destino poderoso o bastante para se fazer cumprir por toda a posteridade. 

As indicaes
Fime
Direo  Steven Spielberg
Ator  Daniel Day-Lewis
Ator coadjuvante  Tommy Lee Jones
Atriz coadjuvante  Sally Field
Roteiro adaptado
Montagem
Fotografia
Trilha sonora
Desenho de produo
Mixagem de som
Figurino


2. TELEVISO  O VOO DA FRANGUINHA
Aos 26 anos, Lena Dunham  a figura mais quente do showbiz americano. A criadora e protagonista de Girls usa a sinceridade e a gordurinha como trunfos.

     At para o padro de suas tiradas grosseiras, o radialista americano Howard Stern pegou pesado ao comentar a consagrao de Lena Dunham, criadora e protagonista do seriado Girls, na recente premiao do Globo de Ouro. Parabns a ela:  duro para franguinhas (chicks, a gria para garotas) gordas chegar to longe, tascou. Lena devolveu a piada com ironia, mas encampando a meno desairosa a seu corpinho. Quando eu morrer, desejo que se inscreva em minha lpide: Ela foi uma franguinha gorda, e ainda assim chegou l, declarou. Em Girls, verifica-se que Lena utiliza o mesmo recurso  a autodepreciao  como arma subversiva. E tambm de persuaso: os prmios nas categorias de srie cmica e melhor atriz confirmaram Lena como a bola da vez (no se trata de um trocadilho infame) no showbiz. Ao expor sem grilos suas gordurinhas em cenas cruas de sexo, a criadora, roteirista, diretora e protagonista da srie resume o esprito da gerao hipster  jovens que cultuam o cinema independente e a msica alternativa, adotam o bairro nova-iorquino do Brooklyn como ptria e chegam  idade adulta e ao mercado de trabalho em tempos tempestuosos na economia. No episdio que abre a segunda temporada de Girls, com estreia no Brasil marcada para o domingo 20 no canal HBO, Hannah, a protagonista e alter ego de Lena,  flagrada na cama ora abraada carinhosamente com um ex que virou gay (ele logo esclarece estar excitado pensando em outro homem), ora fazendo um sexo desajeitado com seu novo namorado, Sandy (Donald Glover). Enquanto se lana no novo caso, contudo, Lena no consegue (ou no quer, no fundo) se desvencilhar de Adam (Adam Driver), outro incmodo parceiro com quem se consolava na alcova. A metfora embutida em tantas aventuras mal resolvidas  corrosiva: est-se diante de uma juventude com muito apetite de se autoafirmar, mas ao mesmo tempo pattica e sem objetivos claros, no raro se conformando com menos do que aquilo que faria jus  sua formao.
     Aos 26 anos, Lena comunga de traos com Hannah e suas trs amigas a bonitinha mas fracassada Marnie (Allison Williams), a neurtica Shoshanna (Zosia Mamet) e a estabanada Jessa (Jemima Kirke). Ela ainda morava com os pais (suprema humilhao para um jovem americano) ao ganhar fama com o longa Tiny Furniture, em 2010, e mesmo aps o sucesso de Girls. Na srie, Hannah tem no fato de Sandy ser negro um fetiche, mas sente ojeriza pela inclinao republicana dele, j que  uma aspirante a escritora liberal. Lena tambm reza por essa cartilha poltica: na ltima eleio americana, enraiveceu conservadores ao gravar um vdeo de apoio ao democrata Barack Obama em que dizia que o prazer do primeiro voto  igual ao da perda da virgindade. Ela tambm no resiste  outra vez, como a personagem  a se envolver com rapazes sonsos: seu namorado, Jack Antonoff,  um roqueiro esquisitinho. Mas, sob os demais aspectos da existncia, Lena se afasta  velocidade de um cometa da gerao que representa. Em vez das roupas de brech de Hannah, adora vestidos de grife. Recentemente, mudou-se para um apartamento prprio de 500.000 dlares e embolsou um adiantamento de 3,7 milhes por um livro de memrias. No  para qualquer um escrever uma autobiografia aos 26 anos. Se depender das apostas em Hollywood, essa franguinha no ter um voo de galinha. 
MARCELO MARTHE


3. LIVROS  O XTASE DA NATUREZA
Livro recupera a pouco conhecida obra de Marianne North, uma grande retratista da flora e da fauna brasileiras.
MARCELO MARTHE

     Em excurso por Minas Gerais nos anos 1870, a inglesa Marianne North ouviu o lamento de um padre que queria montar um museu de histria natural e dar aulas da matria  em vo. Num pas que abrigava plantas e animais ainda desconhecidos, o desprezo pelo tema chocou Marianne. Os brasileiros no viam que vantagem isso traria, anotou. Restou a estudiosos estrangeiros como ela abraar a tarefa. Solteirona convicta nascida num cl aristocrtico, Marianne j passava dos 40 anos quando se converteu em artista-viajante. Para retratar as paisagens, a vegetao e os animais de recantos remotos, deu a volta ao mundo trs vezes. Um apelido atestava o jeito irrequieto para uma mulher de seu tempo: ela era chamada de Pop  estalo ou pipocar, em ingls. No Brasil, um de seus primeiros destinos, a artista encontrou o norte de sua obra: a representao da natureza tropical com desenho rigoroso e cores ardentes. Essa obra ficou mais de um sculo confinada  galeria construda sob a superviso dela no jardim botnico de Kew, perto de Londres. S aps uma restaurao geral do acervo, as 112 pinturas brasileiras, feitas entre 1872 e 1873, enfim ganham uma edio completa. Em A Viagem ao Brasil de Marianne North (Sextante: 200 pginas; 59,90 reais), o historiador Julio Bandeira recupera a trajetria da artista e rene os trechos de sua autobiografia que aludem ao pas. So impresses no s sobre a fauna e a flora: em suas andanas pelo Rio e por Minas Gerais, Dona Pop captou com mordacidade os modos do povo daqui.
     Desde o Renascimento, a arte de retratar a natureza estabeleceu-se como um filo de fins cientficos: ao reproduzirem com preciso as estruturas de cada organismo, os artistas atingiam um grau de didatismo que mesmo a fotografia no permitiria obter. O sculo XIX foi o auge da pintura naturalista e o Brasil, um parque de diverses para tais artistas. Mas nem os nomes mais famosos, como o alemo Rugendas e o francs Debret, deixaram uma produo sobre a natureza do pas to rica quanto a de Marianne. Na linhagem de mulheres que impuseram o padro-ouro nessa seara, figura ainda sua conterrnea e sucessora Margaret Mee, que atuou na Amaznia a partir de 1956 (e morreu em 1988). Contrariando o cnone do gnero, que previa a representao esttica de cada planta ou animal, Marianne conferia-lhes vida e movimento. Seus flagrantes alcanam um equilbrio fino entre arte e cincia  qualidade reconhecida pelo amigo Charles Darwin. Outro detalhe a diferencia dos demais artistas-naturalistas: em vez de guache ou aquarela, ela pintava a leo, o que realou as cores e permitiu que sua obra envelhecesse menos.
     A opo custou sua vida: Marianne morreu em 1890, aos 59 anos, envenenada pela tinta a leo. Publicados postumamente, seus dirios falam da aventura de viajar pelas estradas lamacentas do Brasil. Com um misto de ironia e curiosidade antropolgica, ela discorre sobre as relaes entre os negros e seus senhores no crepsculo da escravido:  um erro supor que os escravos no so bem tratados, em todos os lugares os vejo sendo mimados como animais de estimao. Pena que seus escritos no tenham escapado  censura. Qui por alguma referncia mais inconformista, os originais continuam sob a guarda da famlia, informa Bandeira. Marianne via o casamento como uma experincia terrvel. Mas comungava certo trao com as moas casadoiras da Inglaterra vitoriana: embora denotasse pudor, no fundo, parecia s pensar naquilo. A mesma Marianne que se horrorizou com o assdio de homens bbados numa estalagem se esmerou ao pintar beija-flores sugando o nctar de orqudeas e paineiras. A viso do passarinho enfiando o bico nas flores era ento considerada pura pornografia, relata o historiador. Dona Pop no se avexava.


4. LIVROS  COROA PESADA DEMAIS
Freddie Mercury  A Biografia Definitiva traz um lado pouco conhecido do vocalista do grupo ingls Queen. Ele era tmido, e fazia sexo e consumia drogas em quantidades pantagrulicas porque era carente de afeto.
SRGIO MARTINS

     Em 1985, o quarteto ingls Queen foi uma das principais atraes da primeira edio do festival Rock in Rio. No palco, fez duas performances lendrias. Mas, na capital fluminense, o cantor Freddie Mercury tinha outra ideia de entretenimento: ele ordenou que seu empresrio pessoal recrutasse garotos de programa. Eles eram levados para a sute do cantor, abastecidos de lcool e cocana e depois apresentados a Mercury  que fazia sexo com todos e na frente de todos. Uma revelao dessa gravidade faria sucesso nos tabloides sensacionalistas, que certamente trariam mais detalhes do Satyricon tropical do vocalista. Mas em Freddie Mercury  A Biografia Definitiva, de Lesley-Ann Jones (Best Seller; traduo de Fabiana Barqui; 490 pginas; 59,90 reais), ela causa sobretudo tristeza. A volpia  e irresponsabilidade, porque quela altura j se sabia da letalidade do vrus da aids  de Mercury caracterizada pela autora como uma compulso, que fazia com que ele se detestasse assim que terminava de aplacar suas vontades.
     O livro de Lesley-Ann traa um perfil cuidadoso do ser humano Freddie Mercury (ou melhor, Farrokh Bulsara), nascido no protetorado britnico de Zanzibar em 5 de setembro de 1946. Seus pais, Bomi e Jer Bulsara, no eram afetuosos, muito menos presentes  coube s babs mimar o pequeno Farrokh. Para a autora, essa ausncia de carinho foi o fator decisivo para Mercury se tornar to desesperado por afeto. Transferido para a escola St. Peters, em Panchgani (perto da cidade indiana de Mumbai), aos 8 anos, Farrokh virou Freddie, por obra dos professores que lutavam com o nome de origem iraniana. Na adolescncia, ele montou sua primeira banda de rock, The Hectics, e virou um aluno displicente. Posteriormente, fez questo de cortar as ligaes com as pessoas que conhecera na ndia. Certa vez, um de seus amigos foi visit-lo aps uma apresentao do Queen. Mercury o esnobou deliberada e solenemente.
     Freddie Mercury tinha 18 anos quando se mudou com a famlia para Londres. Em 1970, ele se uniu ao Smile (que mais tarde seria rebatizado de Queen), formado pelo guitarrista Brian May e pelo baterista Roger Taylor. O fato de seus companheiros de banda terem se diplomado em universidades importantes o deixava to chateado que ele mentia sobre sua escolaridade. O sobrenome artstico era uma homenagem ao deus romano Mercrio. Alis, essa fixao pela mitologia foi um dos motivos que o aproximaram do cantor e pianista Elton John  que havia adotado um Hrcules no sobrenome. A dupla se conheceu no fim da dcada de 60 em uma apresentao de Elton John e compartilhava vrias outras similaridades: ambos eram extremamente apegados  me, haviam estudado piano clssico na infncia, tinham dificuldade em assumir a homossexualidade e detestavam sua aparncia. Mais tarde, exibiriam tambm o mesmo apetite pantagrulico por drogas e sexo. Michael Jackson foi outro grande amigo do cantor. Quando se conheceram, Mercury j pertencia ao primeiro escalo do rock. Chegaram a compor juntos (a faixa mais conhecida  State of Shock, que ganhou vocais de apoio de Mick Jagger), mas tanto a amizade como a parceria acabaram quando Jackson repreendeu o amigo por insistir em consumir cocana na mesa de sua sala.
     Em Freddie Mercury  A Biografia Definitiva, h uma clara preferncia pelo homem, em detrimento do artista de voz poderosa e presena de palco inimitvel. Os discos do Queen so enfileirados de forma preguiosa, aliviada apenas por algumas anedotas. (Uma das mais saborosas trata do encontro entre Mercury e Sid Vicious, baixista do grupo punk Sex Pistols. Vicious perguntou ao cantor se ele iria levar o bal para as massas. Sim, meu querido Ferocious! Farei o meu mximo, foi a resposta de Mercury.) O interesse verdadeiro da autora est no sujeito tmido, confuso sobre o amor, que apesar de ser gay teve com a inglesa Mary Austin um relacionamento que durou praticamente at o fim de sua vida  ainda que ela fosse mais figura materna que amante. O parceiro mais constante de Mercury foi o cabeleireiro Jim Hutton. Quando eles se conheceram, Hutton era casado com outro homem. Dois anos depois, o cantor o encontrou numa festa e lhe passou uma cantada impublicvel  que colou. O casal permaneceu junto at a morte de Mercury, em 24 de novembro de 1991. Hutton tambm era soropositivo, mas morreu de cncer no pulmo, em 2010.
     Mercury recebeu o diagnstico de aids em 1987, embora os sintomas da doena j se houvessem manifestado. Nunca revelou aos integrantes do Queen que estava doente, apesar de ter protagonizado uma cena penosa. Em 1989, durante um jantar na Sua, ele se irritou com uma conversa sobre doenas. Colocou a perna na mesa, mostrou as feridas em sua panturrilha e disse: E vocs acham que tm problemas!. A realeza, s vezes,  um posto solitrio e doloroso. 


5. VEJA RECOMENDA
BLU-RAY
TED (ESTADOS UNIDOS, 2012. UNIVERSAL)
 O assunto j foi muito discutido, mas no custa reforar: apesar de ter como um dos personagens principais um ursinho de pelcia, Ted no  um filme para crianas de 11 anos.  para maiores de 16, uma vez que o brinquedo em questo, que ganhou vida misteriosamente quando seu pequeno dono formulou um desejo s estrelas,  um sujeito folgado, boca-suja, mulherengo, beberro, maconheiro e, de quebra, dominador: morre de cime do namoro do seu dono, John (Mark Wahlberg), com a linda e inteligente Lori (Mila Kunis) e faz o que pode para impedir que John entenda que chegou  vida adulta faz tempo (ele tem 35 aninhos). Animado com sutileza virtuosstica e dotado da voz (e do humor estranho, mas estranhamente cativante) do diretor Seth MacFarlane, criador do desenho Uma Famlia da Pesada, esse personagem egosta e cheio de vontades caiu nas graas do pblico e fez de Ted um dos maiores sucessos de 2012, com 500 milhes de dlares arrecadados na bilheteria. Agora MacFarlane vai ter de maneirar: graas a tanta visibilidade, foi convidado a ser o mestre de cerimnias do Oscar  e o Oscar no gosta de bocas-sujas.

DISCOS
TRABALHOS CARNVOROS, GUI AMABIS (YB)
 Gui Amabis  um dos talentos da nova gerao de artistas de So Paulo. Seu currculo inclui desde a trilha sonora dos filmes Quincas Berro dAgua e Bruna Surfistinha at a produo de discos da cantora Cu e do compositor Rodrigo Campos. Trabalhos Carnvoros  o segundo lbum de Amabis e segue caminho oposto ao de seu lanamento anterior, Memrias Luso-Africanas, de 2011. Todos os vocais esto a cargo de Amabis, enquanto em Memrias essa funo era dividida com vrios convidados, entre eles a cantora Tulipa Ruiz e o rapper Criolo. Amabis cuida ainda dos teclados, das programaes e do canto quase falado, e o coprodutor Rgis Damasceno, do grupo Cidado Instigado, toca baixo e uma guitarra permeada de efeitos. H vrias participaes bem escolhidas, como a da violoncelista Fernanda Monteiro na faixa-ttulo e em Pena Mais que Perfeita ou a da guitarra desenfreada de Dustan Gallas em Consulta Mental. Na soma,  um lbum introspectivo e belo, que funciona melhor quando escutado em fones de ouvido, prestando-se ateno aos detalhes da produo e  beleza das letras (como em Deus e Seu Guardio e Menino Horrvel). O disco pode ser baixado gratuitamente no site www.guiamabis.com.

ALLEN STONE (SOM LIVRE)
 A expresso blue-eyed soul  o equivalente a soul branco, em traduo livre  j foi usada para elogiar desde talentos como a cantora inglesa Dusty Springfield at enganaes como Jamiroquai e Joss Stone. Mas, no caso de Allen Stone (nenhum parentesco com a cantora), um americano de 24 anos, ela  muitssimo bem empregada  embora o prprio prefira o termo hippie com alma soul. A dedicao  msica negra vem de bero. Stone  filho de pastor e desde criana frequentou o coral da igreja do pai. Adulto, passou a se devotar a uma atividade mais profana: trocou a louvao pela msica secular. Lanado nos Estados Unidos em 2011, seu disco de estreia  uma delcia em qualquer ambiente e circunstncia: pode tanto ser ouvido numa festa como num clima romntico a dois (caso em que o balado The Wind  infalvel). Na sonoridade, Stone se prova um tradicionalista: suas composies esto mais prximas da soul music dos anos 60 que das atuais produes do rhythmnblues. Excelente escolha: os arranjos valorizam seu falsete, que brilha em faixas de apelo radiofnico como Celebrate Tonight e Say So  que parece uma produo da legendria gravadora Motown.

LIVROS
DOIS SONHOS & A ALDEIA DE STEPNTCHIKOVO E SEUS HABITANTES, DE FIDOR DOSTOIEVSKI (TRADUO DE PAULO BEZERRA E DE LUCAS SIMONE; EDITORA 34; 240 E 352 PGINAS; 44 E 49 REAIS)
 Estas pequenas  porem nunca menores  obras de Dostoievski (1821-1881) foram publicadas em 1859, poucos meses aps o autor ser libertado da priso na Sibria, onde passara quatro anos condenado pelas autoridades czaristas. Apesar da devastao psicolgica, ele foi capaz de traar um painel exuberante, irnico e francamente divertido da sociedade russa. No primeiro livro, a novela O Sonho do Titio  uma delirante comdia de costumes sobre a tola e alienada aristocracia, que se recusa a ver a tragdia que est se formando  sua volta. J Sonhos de Petersburgo mistura prosa, poesia, humor e devaneio. Mas  em A Aldeia de Stepntchikovo que o escritor revela absoluto domnio do ofcio com um personagem antolgico: o bufo Fom Formitch Opiskin, que se torna um tirano na manso onde antes vivia de favor.  a fasca do gnio que sobreviveu  perseguio,  pobreza e ao caos emocional e logo atingiria o pice em Crime e Castigo e Os Irmos Karamzov.

TELEVISO
HOUSE OF LIES  A SEGUNDA TEMPORADA (DIA 20, s 22H30, NA HBO)
 Se voc ainda no entendeu o que ns fazemos,  porque estamos fazendo direito, dizia o protagonista Marty Kaan num dos episdios da temporada inaugural desta srie. Em seu desempenho afiado feito navalha como o consultor Kaan, especialista em fazer com que grandes empresas creiam que ele tem a soluo para todos os seus problemas, Don Cheadle  a primeira e a maior razo para o espectador prosseguir assistindo  segunda temporada, ou recuperar o prejuzo e ver a primeira. Mas no a nica razo. O restante do elenco  timo (destaque para Donis Leonard Jr. como o filho pr-adolescente de Kaan, s voltas com certa confuso sexual), os roteiros vo crescendo a cada episdio (de meia hora apenas, enxutos e direto ao ponto) e tambm o tom ganha um ajuste fino, no qual a comdia vai se tingindo com um qu de desespero cada vez mais pronunciado. No episdio que abre a nova temporada, Kaan e seu time de prestidigitadores empresariais acabam de emergir de um terremoto profissional  apenas para descobrir que nem por isso esto pisando em terreno firme, seja no trabalho, seja em suas calamitosas vidas pessoais.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA 
3. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA
4. Morte Sbita  J.K. Rowling. NOVA FRONTEIRA
5. A Travessia  William Young. ARQUEIRO 
6. Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA
7. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA
8. Finale  Becca Fitzpatrick. INTRNSECA
9. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
10.   A Fria dos Reis  George R.R. Martin. LEYA BRASIL

NO FICO
1. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA
2. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA
3. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
5. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kevin Maurer. PARALELA 
6. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO
7. Coraes Descontrolados  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
8. Um Lugar na Janela  Martha Medeiros. L&PM
9. One Direction  Biografia.  Danny White. BEST SELLER
10. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
2. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE
3. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
4. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
5. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
6. Viver com F  Cissa Guimares. CASA DA PALAVRA 
7. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE
8. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA
9. Manual dos Jovens Estressados  Augusto Cury. PLANETA 
10. Viajante Chic!  Gloria Kalil. Agir 


7. J.R. GUZZO  GUIDO E GISELE
     Algum deveria ter alertado a presidente Dilma Rousseff, logo no comeo do seu governo, sobre a alma dos jornalistas ingleses. Durante anos, estiveram entre os principais fornecedores de alegrias para os governos Lula e o seu, apontados na imprensa britnica como exemplos de virtude para o mundo  e o que diz um jornalista do reino de Sua Majestade Elizabeth II vale mais do que dizem os outros, por razes que no vem ao caso explicar nos limites deste artigo. A certa altura, a revista The Economist chegou a colocar em sua capa uma ilustrao do Cristo Redentor subindo do alto do Corcovado rumo ao espao sideral, com uma mensagem do tipo ningum segura o Brasil  e que governo precisa de qualquer outro selo internacional de aprovao quando ningum menos que The Economist est dizendo uma coisa dessas? O problema, a,  que governos em geral no devem confiar em jornalistas ingleses. Trata-se, historicamente, de um pessoal imprevisvel, indisciplinado e impertinente. Sabem de coisas que no deveriam saber, muito menos publicar. Escrevem com frequncia o contrrio do que se espera. Leem a correspondncia privada das pessoas e publicam confisses ntimas de mordomos; no so cavalheiros. Mais que tudo, esto acostumados h 200 anos com a ideia de que fatos existem para ser publicados e, se forem inconvenientes, melhor ainda  sobretudo se incomodam polticos, milionrios, celebridades, estrelas do mundo pop, lordes do reino e por a afora.
     Foi um lamentvel desapontamento para a presidente Dilma, assim, ler de repente no fim do ano, na mesma The Economist, que deveria botar no olho da rua o seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, por incompetncia em estgio terminal. Mas no estava tudo bem? Estava. S que deixou de estar, embora no parea claro como alguma coisa poderia mudar para melhor no Brasil com a sada do ministro; se ao longo de seus dez anos no governo ele nunca ocupou uma nica jornada de trabalho decidindo questes vitais para a economia, no d para jogar-lhe a culpa por nada que esteja dando errado.  verdade que Mantega poderia ser um perigo. No lanamento do Plano Real, por exemplo, escreveu um artigo prodigioso: conseguiu, do comeo ao fim, errar em 100% de tudo o que disse. Com a certeza de quem estava demonstrando o binmio de Newton, garantiu que o plano iria fracassar em todos os seus pontos, sem exceo de nenhum  e isso, pela prudncia mais elementar, deveria fazer com que o homem fosse mantido o mais longe possvel da Fazenda nacional. Mas, como nunca o deixaram resolver nada de importante, tambm no o deixaram errar.
     Mantega, pensando bem, at que tem sido um colaborador til para o governo. Para comear, ele  um craque na arte de no criar problemas. Foi capaz de nomear para a presidncia da Casa da Moeda, onde se fabrica todo o dinheiro deste pas, um cidado que nunca tinha visto em sua vida; algum mandou que nomeasse, e ele nomeou.  para reduzir o IPI? Est reduzido.  para suspender a reduo? Est suspensa. Se for encarregado de anunciar o fim do mundo, dir que se trata de um fato atpico  e que o governo no trabalha com a hiptese de que isso atrase as obras do PAC. Acima de tudo, um substituto com vida prpria no Ministrio da Fazenda no iria durar mais do que quinze minutos no cargo. Na primeira vez que contrariasse a presidente, nem precisaria esperar o decreto de demisso  j poderia sair direto para casa. Dilma, pelo jeito, deseja manter Mantega no posto. Ele s sai se quiser, disse a presidente aps a sentena de condenao da Economist. No chega a ser uma garantia feita de concreto armado; Mantega quer ficar, mas pode de um momento para outro querer sair, se Dilma quiser que ele queira. Por enquanto, continua l.
     Se a presidente resolver, um dia desses, mudar de ideia, poderia nomear para o Ministrio da Fazenda, quem sabe, a modelo Gisele Bndchen; com certeza, a aprovao a essa escolha seria de 95%, ou mais. E por que no? J que no  para resolver nada,  muito melhor ver Gisele no noticirio, principalmente na televiso, do que a cara do ministro Mantega, por mais simptica que seja; ele seria o primeiro a concordar com isso. O problema  que a sra. Bndchen  uma moa de bom-senso. Se fosse convidada para ministra da Fazenda, diria: No posso aceitar, porque eu no entendo nada disso.  exatamente o que deveriam dizer, mas no dizem, nove entre dez astros da cincia econmica nacional.  uma pena, realmente, que nossa bermodel tenha a cabea no lugar.


